Akira Kurosawa estreou no cinema em 1942 e tornou-se o diretor japonês mais conhecido no ocidente, depois que "Rashomon" ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1951. Logo depois recebeu também um Leão de Prata por "Os sete Samurais", de 1954.
Apesar de tantos prêmios, Kurosawa sempre teve que conviver com um paradoxo em sua carreira: o de ser considerado japonês demais para o ocidente e japonês de menos aos olhos de seu país. Fascinado por Shakespeare, Dostoievski ou Jean Renoir, o diretor consegui trazer para sua obra um diálogo permanente entre esses dois mundos. Assim como ele bebia da fonte do Ocidente, seu cinema também influenciou muito Hollywood.
"Os sete Samurais", de 1954, foi confessadamente estruturado como um western de John Ford. Kurosawa via nos míticos guerreiros de seu país os desbravadores do oeste de Ford. A história se passa no século dezesseis. Sete Samurais e um líder, se colocam à disposição de camponeses para lutar contra bandidos que os atacavam. O samurai covarde que se torna corajoso e guerreiro, vivido por Toshiro Mifune, trasnformou-se num dos grandes personagens a retratar a defesa de Kurosawa pelos valores humanos e morais.
"Sete Samurais" teve enorme repercussão mundial. Tanto que não demorou para que a trama do filme fosse adaptada pelo diretor John Sturges e se transformasse em "Sete homens e um destino", em 1960. Kurosawa realmente sabia imprimir sua marca na performance dos atores. Em "Yojimbo", Toshiro Mifune mostra porque foi o Ronin preferido do cineasta. No total foram 16 anos de parceria.
Histórias sobre Ronin influenciaram muito a obra de Kurosawa. Ronin era um Samurai que não morava num lugar específico nem tinha mestre. Vagava de cidade em cidade e desafiava a ordem social das comunidades em que chegava. não era leal a ninguém, a não ser aos próprios sentimentos e convicções. Em "Sanjuro" , de 1962, o Ronin de "Yojimbo" retorna para mais uma vez combater outro clã de corruptos poderosos.
Em 1974, Kurosawa rodou na Sibéria o belíssimo "Derzu Uzala". Com esse elogio à vida natural, numa clara alusão aos riscos do progresso japonês, Kurosawa ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1976.
Mas seu verdadeiro testamento foi o épico "Ran" que denuncia a violência, apresentada como pico da estupidez humana na ânsia de atingir o poder por ambições desmedidas.
O perfeccionismo de Kurosawa estava ligado justamente ao fato do cineasta participar de praticamente todas as etapas do processo de realização do filme.
Escrevia os roteiros , ajudava na fotografia, na montagem e chegava a desenhar as caprichadíssimas cenas de batalha.
Na origem de Ran está o Rei Lear, de Shakespeare, que Kurosawa transpõe para o teatro Nô.
Ao longo de sua carreira, tanto nos filmes de época, quanto nos filmes que se desenrolaram no japão contemporâneo, o cinema de Kurosawa tratou sempre do desenvolvimento de uma consciência nos indivíduos. Em sua posição política,
estetica e ética se confundem.
Publicado originalmente no site do programa Metrópolis
http://www2.tvcultura.com.br/metropolis/recomenda/recomenda.asp?idrecomenda=18
sexta-feira, 16 de março de 2007
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